É na penumbra que os breves
clarões sussurram aquilo que se oculta.
É na perda da definição
— na escuridão do negro —
que, em busca dos pontos de luz,
a nitidez se deixa apenas entrever.
É na penumbra que os breves
clarões sussurram aquilo que se oculta.
É na perda da definição
— na escuridão do negro —
que, em busca dos pontos de luz,
a nitidez se deixa apenas entrever.
Tenho escrito a história da minha vida,
E até do lápis já me perdi,
Com tantos rabiscos feitos,
Entre outras tantas coisas rasuradas,
Esborratei tinta e mais tinta pelo caminho.
E ultimamente ando só de borracha em riste,
Deixando mais branco o que outrora fora cinza carvão,
Usando este mineral de outra forma,
Crio espaço para mais vida,
Novas histórias pintadas e desenhadas,
Abusando menos das palavras,
Deixando o som apenas escrito nas entrelinhas,
Riscando menos e cada vez menos,
Sublinhando mais e cada vez mais,
Para não me esquecer das histórias, que não quero contar mais. 🤍
Foste curiosidade juvenil,
Mal sabia eu das tuas amarras,
Foste companheiro de tanto,
Em salas cheias de música,
De chuto, fumo e cinzas.
Foste nevoeiro em livros mal escritos,
E chama para me queimar,
Em casas cheias de alegria e dor,
Foste bengala da falta do cuidado,
Droga do prazer interno.
Foste fumo entre horas de pintura,
Harmonia entre uísque e música,
Uma combinação quase poética,
E quando mais precisava de gritar, fumava-te.
E foste tantos gritos fumados.
Foste prisão, ritual viciado agregado,
Foste peso no meu respirar,
De tanta falta de ar provocada,
Está na altura de te enterrar, arma.
Recriar um ritual ancião.
Seguir para o outro lado da vida,
Em liberdade, em paz.
Adeus companheiro mortal,
Deixa-me sacudir a tua cinza,
E regenerar.
Palavras ocas.
Sentimentos manipulados.
Mentiras, não foram poucas.
Egoísmo insípido, vindo de tantos lados.
Intimidade presenteada ao vazio.
Num teatro de terror aclamado de amor.
A consideração, por um fio.
No zero, ficaste sem qualquer teor.
Colagens sob colagens.
Cacos sob cacos.
E tudo por meras miragens.
Só resta matar o que sobrou e enterrar nos buracos.
Descanso-me em paz.
Escrevo o poema,
Como um grito cigano,
Da falta que me fazes,
Num gemido solene,
Em busca do tempo perdido,
Do que ainda não vivemos,
O escárnio do amor,
Que nunca foi teu.
Foste sem querer a gasolina,
Que ateou de novo a chama,
A lenha para me queimar,
Arder só porque sim.
E o fumo que isto causou,
Sufocou o meu oxigénio,
Sem conseguir verbalizar,
Cegou o meu olhar.
E queimando tudo o que não quero,
Sem nada para apaziguar,
Apaga-me, suplico-te.
Apaga o fogo que arde em mim,
Preciso remover as cinzas,
E deixar o restolho de parte,
Purificar de novo o coração.
A reconstrução é imperativa,
Neste sentimento ímpio,
Porque o sentir demais destrói,
Quero-me de volta.
Dei por mim a viajar,
Contigo dentro e fora,
Da cabeça, onde tudo se criou.
Eram os teus cabelos entrelaçados,
No vento do meu suspiro,
Na tua nuca, sussurrando-as,
As palavras escondidas, as que sentia.
Soltas na nossa pele suada,
No vagar de um olhar,
Nas entrelinhas do silêncio,
O cinema assim se fez,
Aquecendo a película romantizada,
Nas madrugadas molhadas,
O sentir a calma do recomeçar,
E sem previsão de sentimento,
Acordei, foi apenas o sonhar.